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28.5.17

NO CASCO


Este é o fim,
Disseram-me no início.
Não ouvi. Não cri.
Não pensei ao certo sobre o que seria isso.
Deixei o tempo comer da vida o viço.
Achando que o desgaste fosse parte do serviço.
.
Você está morrendo,
Disse o médico dentro de mim.
Mas ele não sempre diz isso,
O charlatão de bigode roliço?
Sim. E quase sempre está certo.
Vem me matando aos poucos.
Arrancando pedaços.
E aos bichos que me cercam,
Jogando nacos.
Carniceiro de sucesso,
Que com cães mantém pactos.
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Hoje estou bêbado.
Amanhã, bad.
Na bed.
No casco.
Arrastando corrente.
Incendiando o álcool,
Que por hora,
Atiro na mente.
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O gato insiste do lado de fora.
Mia. Canta. Chora.
E impaciente, 
Espera uma hora.
Evita o passeio
Enquanto tarda a aurora.
.
O computador empoeira em abandono.
Internet que caiu no sono.
Ruído de cooler que se faz em estrondo.
Cerveja que desgela sobre o papel dobrado.
Absorção ao quadrado,
Que em sede,
chupa a cevada pelo vidro suado.
 
A alegria rareia no fundo.
Urina estagnada.
Tequila desperada.
Ressaca adocicada,
Que em garrafa,
Arrasta o gosto de febre limonada.
Vick Pyrena envazada.
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A pele espreme a carne contra o osso.
Gasta o resto de vida que os separa.
Afunila a sorte em canto de vala.
Caçapa encurralada.
Bico de sinuca empoçada,
Que de pouco, não lhe resta nada.
Liberta, liberada, Confusa.
Vazante em busca de casa.
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Então o fim sempre fora isso?
Desato de laço sem compromisso.
Dor. Amor. Vazio.
Volta que termina no início.

5.5.17

REATIVO


Humor hoje em dia é algo completamente insólito. Tudo tem de ser explicado. Subjetividade | ? | jamais. Nem pensar. Acho até que por isso mesmo. As pessoas não querem mais pensar. Acredito que, também por este motivo, o humor inglês | das piadas ridas | esteja em alta.
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Certo dia fiz um gracejo sobre a foto de uma pessoa em uma rede social. Nada ofensivo. Apenas um comentário simples e engraçado. Ao menos foi o que pensei. Só que a graça de uma pilheria surge da centelha provinda de dois polos. Sem ela, o fogo não lambe e o humor se desfaz no instante de seu preâmbulo. E assim ocorreu. Nenhuma réplica. Nenhum aval. Fonte e seguidores mudos. Ignorantes a minha presença. E de bobo cortês passo a condição de mosca sobre banquete. Por ser o único a se divertir, todos evitam. Quanto à apreciação dos demais, aplausos. Todos dizendo a mesma coisa. Ainda assim, aplausos. Talvez tenham dito o que se queria ouvir. Exaltação de uma beleza ausente. Afago em um ego descompensado. Contudo, tinha de haver alguém que mostrasse a verdade. Ao menos uma de suas faces. Mesmo que para isto recebesse as vaias merecidas. Todavia, mutismo. Meu silêncio fala por mim, disse o vazio. E meu zumbido ecoou no vácuo.
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Sei que pareço um tanto reativo com o fato. O tipo de pessoa que queria ter sua piada | enigma | reconhecida pelo destinatário ou algum dos seus, mas não. Não sou esse tipo de pessoa. Bom, na verdade sou sim. A quem tento enganar? Apesar de detestar “curtidas” em minhas postagens | pois um comentário inteligente é bem mais digno | quando vejo algo que avaliei ou postei e apenas alguns desvendaram seus mistérios, sinto-me honrado de certa forma. Noto que ainda existem pessoas desenformadas. Pessoas que, escondidas por detrás da névoa igualitária, cultivam o refino ato de pensar. Almas que ainda Leem nas entrelinhas. Veja o que é invisível e vai ver o que escrevi, já disse Bobby Long. O que a maioria ainda não entendeu é que a real graça de uma piada está em não rir do que foi dito. A risada provinda de um chiste é tão somente ato reflexo primata.
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Mas na verdade existem coisas bem piores que ser ignorado em redes sociais. Digo, pior que ter um jocoso comentário desconsiderado, apesar de justo para a ocasião. Uma delas seria o fato de ser aliciado por um bando de iguais. Pois, pior que tentar ser distinto, estética ou intelectualmente, é acabar vendo que todo esforço que se fez durante a vida para emular diferença dos demais, acabou nos colocando em um nicho que, apesar de seleto, classifica-nos de forma ainda mais medíocre. Tentar ser diferente pelo simples fato de acharmos que todos são iguais é uma idiotice, pois nos torna tão iguais a todos os outros que por vários motivos | alguns justificáveis | optaram pelo mesmo. No fim, fugir de quem somos para sermos algo diferente do que poderíamos ser se apenas continuássemos sendo o que sempre fomos, coloca-nos em patamar de igualdade com os demais que sempre foram os mesmos para permanecerem diferentes daqueles que se achavam desiguais demais. Por fim, acredito que na busca por identidade, ganha quem é, e não quem busca ser, seja lá o que for, pois sem definirmos nossa face, não somos vistos, nem mesmo refletidos em espelho cotidianal por mais engraçado que isso possa parecer.

28.4.17

DIALOGAL


Quando pensamos inicialmente em qual meio de retenção de discurso utilizar em uma entrevista, nos fica claro que o humano seria o de menor impacto sobre o entrevistado, visto que, apesar de toda tecnologia empregada em equipamentos, os mesmos continuam a provocar certo tipo de desconforto na maioria das pessoas, em um eterno reforço, quase inconsciente, do embate entre máquina e homem.
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Contudo, confiar apenas na memória, pode ser fatal para ambos, pois a fidelidade ansiada, certamente se diluirá no processo. Logo, cabe ao entrevistador, selecionar o instrumental adequado para cada ocasião. Pesando sempre no impacto que este terá sobre o alvo da entrevista. Ainda assim, o repórter deve estar preparado para um possível descômodo do entrevistado por conta do método selecionado, e ter em mãos, algo que o substitua, antes que a entrevista decline.
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Equipamentos de registro de imagens e sons são indispensáveis para a segurança das informações compartilhadas por ambos os lados. Algo como um contrato “lavrado” por intermédio destes suportes, e assinados com palavras e gestos. Quanto ao instrumental fotográfico, de suma importância, podemos afirmar que este reforçará aspectos preestabelecidos à entrevista ou captados no decorrer da mesma, positivos ou não, a depender do objetivo pautado.
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Em suma, todo o aparato externo ao profissional que conduz a entrevista, como câmeras, gravadores e afins, atuam apenas como reforço na retenção de informações, cabe a este estar atento ao processo como um todo. Todavia, o foco principal de sua atenção deve estar sobre o entrevistado, registrando não apenas o que é dito durante o processo, mas buscando compreender e traduzir o que se abriga nas entrelinhas e qual a intenção depositada em suas afirmações.
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Sendo assim, fica evidente que um dos mais importantes instrumentais, se não o maior deles, a meu ver, se encontra no próprio profissional, o chamado “feeling”, ou a capacidade de perceber certas modulações como, por exemplo, em tons de voz, posição corporal e atitude do entrevistado diante das questões apresentadas. Para isto, dominar o assunto de antemão é indispensável.
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Saber em que ponto tocar, aguardando a reação do entrevistado é algo extremamente enriquecedor para o resulto final de seu trabalho. Em um pequeno jogo, preparado de antemão, na elaboração das perguntas, o entrevistador pode criar um roteiro que inicialmente deixe seu alvo descontraído, e no decorrer da entrevista vá revolvendo tal emoção, aprofundando questões e registrando mudanças comportamentais do entrevistado. Anotadas em pequenos códigos, tais variantes, facilitariam memorar alterações de humor, paciência, desconforto, dentre outras, que concatenadas as questões que lhe foram apresentadas, construiriam um panorama mais verdadeiro.
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Todavia, de nada serve tantos aparatos, se estes não se calcarem no profissionalismo de quem os conduz, pois antes de tudo, a clareza dos fatos deve ser alicerçada na ética e no bom senso.

8.4.17

PONTO DE VISTA


Às vezes me pego pensando em como é difícil ajudar as pessoas. Muitos livros, religiões e afins pregam este tipo de comportamento, contudo a tarefa não é das mais saborosas. É de fato complicado mostrar aos outros, ângulos diferentes dos seus. Não estão abertos, dispostos a ouvir, ou quem sabe, tentar algo que divirja do que vêm fazendo há anos. É evidente que muitos que se encontram para além do cenário situacional, conseguem enxergar por diferentes prismas os ciclos de erros constantes na vida de algumas pessoas. Todavia, estão próximos demais dos seus, e limitados, não dão conta de que cometem erros semelhantes. Para que saiamos destes embaraços, precisamos ter a sobriedade de ouvir o que vem de fora. Em muitos casos, de pessoas nem tão próximas a nós, visto que os íntimos se encontram, do mesmo modo, impregnados pela esfera panorâmica contaminadora que embaça a visão da mesma, impossibilitando o processo de afastamento necessário para que se possa observar o todo a uma distância confiável e ter condição de, não envolvido por semelhante névoa, conseguir enxergar uma saída para tal Dédalo, ou mesmo apontar caminhos distintos daqueles que, envolvidos de maneira direta, acabam os escolhendo por puro hipnotismo situacional ou condicionamento mental.
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Ainda assim, não sejamos simplórios. Por mais que tentemos, não mudamos ninguém. Acredito que as pessoas não possuam tal poder sobre as outras. Que estas, mudarão apenas quando lhes for conveniente. Porém, é sempre válida a tentativa de apresentar uma visão desigual da qual estão habituadas, e quem sabe assim, influenciar de maneira assertiva a construção ideal das mesmas, para que enfim, encontrem em si, teclas de reajuste que possibilitem encaminhá-las a alguma mudança positiva, por mais diminuta que seja, em seus atos, ações e pensamentos. É inconteste que o mesmo aconteça também no influxo contrário. Estas influências externas podem e, em muitos casos, se não na maioria deles, atuar de maneira contrária ao bem do indivíduo, pois o ser humano em frequente emulação procura a todo instante se sobrepor sobre os demais, e em raros casos, fazer com que estes se sintam bem de verdade. Ao tentar ajudar, refletem, quase sempre, no estilhaçado espelho do outro, sua momentânea felicidade, como exemplo a ser seguido. E como novelo de Teseu, mostram por linhas tortuosas, suas ideias de saída para o labirinto do próximo. Saída esta, conduzida pelo próprio Minotauro. Talvez por isso a habitual reatividade quando tentamos apresentar-lhes pontos de vista diferenciados do que normalmente vivem e observam. Quero crer que algum mecanismo instintivo promova esta reação, em grande parte agressiva, dos demais. Ainda assim, conseguimos deslocá-los brevemente para fora de seus falsos eixos de proteção. Para fora do olho do furacão em que se encontram. E tempestuosos, conseguem ver a situação por algum tempo antes de retornarem. Então, somente após certo afastamento é que os mesmos, em raros casos, ponderam sobre o que ouviram, incorporando ou não, elementos assimilados que a posteriori lhes conduziram a um caminho diferenciado do que de hábito seguiam.

Enfim, ninguém é dono da verdade, até porque ela não existe. O que existe, como dito, são perspectivas da mesma. E são estas que conduzem nossos caminhos. Acredito que a chave para a mudança, em muitos casos, esteja apenas em saber ouvir um pouco mais. Abrir não apenas ouvidos, mas coração e a alma. Para que assim, libertos da muralha que os cercam, possam absorver as mensagens que lhes chegam e não as rechaçar de maneira agressiva àqueles que se deslocam de seus pontos de conforto e os vêm confortar com tais palavras. Estas, capazes em muitos casos, de abrir barreiras na cíclica labiríntica que muitas vezes se encontram e, atordoados, não dão conta de que giram em desalinho, repetindo ações de maneira mecânica a buscar de forma ilusória, respostas diferentes para as questões de sempre.

31.3.17

AFORI5MOS


"Enquanto uns vivem seus sonhos, outros pesadelam."
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"O hipocondríaco morre pela doença alheia."
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"A realidade acontece por acaso."
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"O ser humano é ainda mais podre quando vivo."
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"Quanto mais conheço a qualidade dos outros, mais amo meus defeitos."
 
REFLITA COM MODERAÇÃO

13.3.17

MIDIANDO


Sendo a mídia, parte do construto social, acredito na relação de troca entre o sistema e seu “target”, já que o processo comunicacional dá-se por via de mão dupla. Logo, é notório que haja troca de informações e influências de uma sobre a outra. Contudo, tendo a ser mais apocalíptico que integrado a respeito desta relação.
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Acredito que neste jogo, ganha quem domina os canais de forma mais contundente. Por mais que as instancias midiáticas, em um processo de “leminscata”, sofram influência de seu público para poderem influenciá-lo em um segundo momento, no ponto adequado a persuadi-lo quanto aos interesses dos que bancam tal esquema e vice-versa, acredito que, grosso modo, o poder estará sempre nas mãos de quem detém o meio |midiático|. Apesar de no processo de troca, como dito, necessitar da resposta do outro |público| ou de sentir suas necessidades para poder atendê-las. Todavia, quando a mídia decide massacrar uma informação até que esta seja absorvida pelos demais, ela o faz. E quando este não a sorvem por algum motivo, ai sim, propõe mudanças elaboradas pelas respostas de sua clientela, que nesta ocasião exercem certo poder. Enquanto o público busca se informar sobre algo, a mídia, de maneira geral, tenderá sempre a lhe “enformar” no padrão que lhe for conveniente. E para tanto, se utilizará das ferramentas que lhe convier no processo.
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Notamos o tamanho desta |engrenagem| influência quando encontramos em anúncios publicitários, jornais, dentre outros meios “expressivos” de comunicação, a presença de figuras ilustres, celebridades e pseudocelebridades, a depender do ponto de vista de cada um, e toda gama de personagens, atuando como Formadores de Opinião, devido ao arco de sua influência junto a determinado público. E cada qual possui seus representantes, estes, na maioria, eleito pelo próprio público e usado pela mídia, como representação do mesmo, intencionando um encontro imediato com algo que os faça referência, refletindo seus desejos e possibilidades de conquista dos mesmos. Bem como, em outros casos, a possibilidade de se sentir como |ou próximo| de um ídolo através do consumo de certos produtos representados por, e relacionados a estes.
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Apesar da diversidade midiática e, por conseguinte, do público que cambia com esta, acredito que por mais eclética que seja, uma teia se forme entre elas, o que acaba gerando reflexo de umas sobre as outras. Embora se destaquem, ao menos em números, os grandes veículos se adéquam a um público mais vasto, com intuito claro de se manterem soberanos no sistema, mesmo tendo de se amoldar a este, o que acabam fazendo de bom grado, visto a resposta que em geral obtêm. Todavia, informações diferenciadas, com maior peso de conteúdo, tendem a circular em meios mais restritos, e em veículos específicos para tal consumo.
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Como dito, acredito no processo comunicacional existente entre mídia e público. Contudo, sou da opinião de que mesmo se adequando, o sistema midiático exerce domínio sobre o público, e que este, de forma “inconsciente” colabora, cedendo informações preciosas em seus “diálogos” com o mesmo, mantendo a roda viva deste processo contínuo.

25.2.17

EVOÉ


Após breve e calorosa discussão, uma ficha caiu no fundo desta velha percussão. Durante muito tempo reneguei minha feijoada, meu samba, meu carnaval. Minha alienação! Como pude?! Se sempre fora parte de mim. Toucinho, costela, farofa e aipim. Cachaça. Cerveja gelada. Mulata pelada. Bunda de fora a qualquer hora. E gringo correndo sem demora pra se hospedar no barraco onde o povo mora. Rocinha, Turano, Aranha, Cicrano. Tudo pra pegar de supetão uma lasquinha de nossa alienação.
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Bate-bola, diabinho, modelo com seio à mostra, piranha nostra. Calor paulada. Ovo frito na calçada. Cerveja gelada na porta da cela. Polícia corrupta que nos engambela. Foda-se! Tô em casa. Quero folia. Orgia. Bagunça legalizada por alguns dias. Resolver minhas mumunhas. Ficar na troça, longe da fossa, nem que seja na unha, pois pagamos de bom grado o grosso desse pedágio, bebendo os trocados que nos sobram do ágio.
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Porra, eu sô da Lira, não posso negar. Sou brasileiro, custe o que custar. Tem gente boa que fala sem pensar. Gente perversa que o cascalho atira após atinar. Palavras empedradas. Parte de suas muralhas. Atiram sem perceber, que quanto mais lançam pedra, mais se revelam. Mas fala é fôlego quando o forro é farto de estofo barato. Alienado que nada. O povo segue em disparada, concentrando folia ao som da bateria descompassada. Batendo ponto na miséria da lida pra receber migalha no fim da vida. Migalha viva. Enriquecida de força e briga. De viga. Estrutura viva. Laje erguida sobre o construto da língua. Que não se cala. Chafurda na comum vala, em busca de fala, pois morre se cala. Por isso canta. Levanta a garganta e encara o mal que já não mais lhe espanta.
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— Sou fruto quando nasço. Semente por onde passo. Vazio em descompasso, quando ignoro o sabor doído, por ora esquecido, substituído por outro falo. Diabo velho eu vou cortar seu chifre, vou cortar seu rabo e vou dar pra Exu. Da sua língua vou fazer chicote pra bater nas costas de quem fala mal de mim. Fala mal de mim, mas não fala por detrás. Fala mal de mim, mas não fala por detrás. Ô pega ela diabo, ô pega ela satanás.
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Desculpe-me se dói quando a verdade rói. Rasgo a fantasia pra dos rasgos tirar alegria. Sou rato. Sujo. Barato. Vazio de fato. Mas ainda, brasileiro nato. Malandro do prato. Vendendo a alma em contrato, pois o diabo aluga espaço no meu quarto. Vem ver desfile da janela do barraco, cansado de gente que se acha esperta, quando sobra de extrato. Deixa barato. Por hora bradamos em farto: Evoé Momo! Amigo mordomo, que me trás mulata, sombra no sol e cerveja barata. Bom carnaval!